VIDA DE ESTÁTUA

Há chegado o inverno.

O fio que congela as gotas de orvalho; aquece o mercado de lã.

Casais de namorados, que antes passeavam de mãos dadas, agora, andam agarradinhos.

Que lindos!

Ao gélido sopro do vento, resiste a estátua-viva.

Muitos que por ela passam, nem se dão conta de que ali pulsa um coração.

Parece que nem respira.

- Tadinho! Morrendo de frio! Dizem as meninas.

Mas o poder de concentração que equilibra sua mente faz aquecer seu interior.

A criança que se aproxima desconfiada, ganha um beijinho.

Opa! Levou um sustinho.

Você tá vivo? Pergunta ela.

Humm! Que sapeca essa estátua.

Balança a cabeça, dizendo que não.


Estátua-viva. Um paradoxo. Se for estátua, não tem vida, se estiver viva, não é estátua.

Enfim; compreendemos.


Ao cessar do vento gelado, o sol brilha no céu. Irradiante, ardente como o sol de verão.

Com um espesso figurino pintado de preto como pedra, o rosto maquiado da mesma cor.

Quantos graus de temperatura têm de ele suportar?

A vovozinha que passeia ao lado do vovô e da netinha, viu, parou e voltou.

- Que lindo! Diz a vovó.

Ganhou também um beijinho.

Êta vovó toda contente; vasculha sua bolsa, vira pra cá e pra lá. Depois de muito sacrifício encontra uma moeda.

Onde eu ponho? Onde eu coloco?

Me da um sorriso, se não, não te dou uma moeda.

Tá difícil; heim vovó.

O vovô observa e aponta.

- Ali! Ali! Ali no cofrinho.

Finalmente um beijinho na mão e um carinho na bochecha.

- Ganhou o dia; heim vovó! Diz a netinha.

Lá se vão, todos contentes.


Tão grande é esse herói. Com um movimento com a pontinha do nariz, faz sorrir o mundo.

Destaca-se, em um imenso centro urbano, faz parte do cenário da cidade.

Em que está pensando ele neste momento de total concentração?

Em um romance?

Em um momento feliz com seu filho?

Em um vulcão que desperta no Himalaia?

Será que navega pelo espaço? Ou tenta compreender o centro do planeta Terra?

Seus pensamentos se vão com o vento?

Será que pensa nas pirâmides do Egito? Ou na criança que vive na rua?

Talvez pense naqueles que o amam.

Talvez, pense em uma formiguinha, que caminhava sobre a mesa, enquanto tomava café pela manhã.

Talvez pense em física, ciência, matemática ou viaje em arqueologia.

Parece que ele pensa em tudo.


As pessoas que trabalham no comércio descansam logo após a refeição.

Alguns se sentam ao lado do canteiro de flores.

Outros caminham por aí. Aproveitam o tempo livre para fazer compras.

Há aqueles que apenas se aquecem ao sol.

Aí vem um turista folgado.

Vai logo tirando foto.

Tira uma. Tira duas.

Mas é mesmo muito folgado! Pede a esposa para tirar a foto e se apoia na estátua; como se estivesse descansando.

- Oh Shit statue!

Oh! A estátua balançou.

A estátua balança e o turista a segura; ela balança e o turista a segura.

Vinte segundos se passam e:

- Thank you Mr.

Ufa! A estátua falou.

É uma gargalhada só.

O turista contribui.

Muito tempo depois o turista ainda se emociona com tal surpresa.


Ao cair da tarde, o vento gelado sopra com menos intensidade.

Surge a névoa que esconde os mais altos edifícios.

Finalmente, desse do pedestal, guarda tudo com jeitinho, tira a maquiagem e se vai.

Com uma mochila nas costas, em uma mão segura o que lhe serviu de cenário, na outra, o pedestal.

Vai-se, deixando um grande vazio na rua XV de Novembro.

Caminha ele solitário.

Desaparece em meio à espessa nevoa, como se fora ninguém.

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